quarta-feira, 13 de julho de 2022

Minha primeira encomenda com tinta à óleo

"É preciso copiar e recopiar os mestres, e só depois de ter demonstrado ser bom copista é que lhe será permitido, logicamente, pintar um rabanete a partir da natureza." Edgar Degas*
Olá, meus queridos. Como estão? Hoje está bem friozinho por aqui, e um cappuccino vai muito bem. E é na companhia de vocês, da frase de Degas e desta bebida deliciosa que venho contar sobre uma experiência bem especial: minha primeira encomenda de pintura à óleo.

Me aventuro e invisto nessa técnica desde o ano passado, fazendo testes, leituras e vários estudos com base nas obras de outros artistas (recomendo ver o post sobre a minha Monalisa). Pois bem, foi divulgando esses estudos nas redes sociais que no final do ano passado um amigo me procurou interessado em encomendar uma versão pintada por mim de um quadro religioso com o tema "São José". Logo de cara ele me passou as seguintes referências:



Fique bem assustada, mas fui bem honesta com ele. Disse que estava começando a conhecer o material, que o tempo de espera para a conclusão do trabalho seria bem demorado, e que não era pra ele criar muita expectativa em relação ao resultado, mas que eu faria o meu melhor. A resposta dele, que me surpreendeu, foi a seguinte: "Se eu quisesse igual, imprimia da internet e emoldurava. Encara como se fosse mais um dos seus estudos, não tenho pressa." E assim foi feito!

Acordamos que a obra base então seria São José e Jesus com João Batista pintado pelo artista suíço Melchior Paul von Deschwanden. 


A primeira coisa que fiz foi passar,  usando o método dos quadradinhos, o desenho para a tela previamente preparada e queimada** com tinta ocre. Em seguida, preenchi as camadas de cor base de cada pedaço da pintura, começando pelo fundo.


Quando se trabalha em camadas com tinta à óleo, é importante seguir uma regra chamada de "do magro pro gordo", que significa trabalhar com a tinta mais diluída no solvente primeiro e ir adicionando o óleo nas camadas seguintes, sendo a última a mais gordurosa.


A imagem acima é uma comparação da primeira camada de tinta com a segunda camada. Todo o processo foi documentado ao longo da execução e eu ia mandando as fotos (às vezes até vídeo) pro cliente ver como estava ficando. Ele estava muito satisfeito já na primeira camada de tinta, mas eu precisei explicar que seriam adicionadas outras camadas pro resultado ficar melhor.


Nesta imagem do detalhe do cantil carregado pelo menino João Batista também é possível reparar como as camadas de tinta fazem diferença no resultado. E eu chamo de camadas porque é preciso esperar a tinta secar antes de passar as demãos seguintes. Por isso a pintura com tinta à óleo pode ser demorada.

Outra coisa que eu tenho feito, uma vez que me afasto alguns dias da pintura para respeitar o intervalo de secagem de uma camada pra outra, é anotar as tintas que uso e como faço as misturas entre elas para obter determinada cor. 



Falando em intervalo, precisei paralisar a pintura por um tempo para estudar mais. Obviamente comuniquei o cliente sobre isso e ele foi super compreensivo. Fui à procura de material sobre pintura figuras humanas, principalmente nas técnicas de peles/carnação. Nesta época conheci a paleta reduzida, pintei a Monalisa, ampliei meu repertório visual de pinturas, comprei alguns livros... e só depois retornei ao trabalho (e as anotações lá do caderninho foram uma baita ajuda!). É muito importante a gente entender o que sabe e o que não sabe fazer, e, se tiver oportunidade, aprender ao longo do processo.

O resultado entregue pro cliente foi este:


Definitivamente diferente do original, mas, como o cliente pediu, foi a minha versão. Essa encomenda ocupa agora o lugar de a mais difícil que já fiz (por enquanto), mas contando com a sorte de ter uma pessoa tão compreensiva do outro lado. Me foi permitindo testar, errar, estudar etc sem pressão e cobranças. Acredito que essa "liberdade" (e confiança no meu trabalho) aliada à comunicação constante das etapas de execução foram fatores determinantes para um resultado feliz pra mim e para o meu amigo.

Bom, esse foi o relato da minha experiência e espero que me contem também qual a encomenda mais difícil já apareceu na vida de artista de vocês.

Até a próxima! o/

_______
* GIRARD-LAGORCE, Sylvie. Degas: a arte do movimento. São Paulo: Folha de São Paulo, 2022.
** Não houve fogo envolvido no processo (risos). Queimar nesse contexto significa passar uma camada fina de tinta diluída com solvente na base da pintura, a fim de neutralizar o suporte ou então para que as camadas de tinta seguintes fiquem com a mesma vibração tonal do fundo. 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Como recuperar guache seca

As guaches secaram no potinho, e agora? Calma, não precisa entrar em pânico e nem jogar suas tintas fora. Nesse post eu vou ensinar como recuperar essas preciosidades da nossa vida.

Guache sequinha no pote... eita tristeza!

Você vai precisar de:
- tinta guache seca no pote;
- borrifador ou conta-gotas;
- palito de madeira (churrasco ou de picolé).

O primeiro passo é abrir o pote de guache. Se tiver dificuldade em desenroscar a tampa, pode dar umas batidinhas em volta dela com o cabo de pincel ou de uma colher de pau para quebrar a tinta que ficou alojada das ranhuras da tampa e tente abrir novamente.

Depois de aberto, borrife ou goteje um pouco d'água dentro do pote e, com ajuda do palito de madeira tente misturar a tinta. É importante que a água seja colocada aos poucos, para que chegar na consistência ideal da tinta - pastosa e homogênea.

Adicione água aos poucos e mexa. Repita o processo quantas vezes precisar.

Caso tenha dificuldade em identificar a consistência ideal da tinta guache, você pode ir testando com um pincel no papel até achar que está deslizando bem, sem empelotar. Novamente, atenção para não aguar demais, pois não há como reverter imediatamente.

Teste a consistência à medida em que for misturando.

Recuperei 6 potinhos de guache profissional da marca Talens desta forma, mas pode não funcionar com guaches de linha escolar devido à mudança na composição da tinta pelas fabricantes. Não custa tentar, né?

Por que a guache seca?
Guache, assim como aquarela, é uma tinta composta por basicamente 3 ingredientes: pigmento, goma arábica e água. Com o tempo a água pode evaporar dos potinhos, e isso acontece muito mais rápido se estiverem mal tampados. Já o pigmento e a goma, que não evaporam, endurecem e ficam craquelados igual chão de barro no calor. Entendendo esse processo, basta a gente adicionar o ingrediente que evaporou de volta na mistura.

Consigo recuperar outras tintas assim?
Seguindo o mesmo processo descrito acima, você pode conseguir bons resultados na recuperação de nanquim e aquarela também, pois são tintas com água na composição. 

Já as tintas acrílicas, apesar de solúveis em água quando frescas, são irrecuperáveis depois de secar. Além de água, ocorre volatização de outros componentes, transformando o resíduo em uma película plástica - e o plástico não dissolve na água.

Mas perae...
Se sua tinta estiver com fungos ou com um aspecto duvidoso, o melhor a se fazer (pra sua saúde, inclusive) é descartá-la imediatamente e adquirir uma nova quando puder. Tintas estragadas podem causar problemas sérios como alergias, dermatites, intoxicações etc.

Por fim, desejo boa sorte na recuperação dos seus materiais de pintura! Espero ter ajudado com este post. Abração e até a próxima! o/


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Existe diferença entre Guache e Aquarela?

Por muito tempo ensaiei trazer esse assunto para o blog, mas me perdia pensando na melhor forma de fazer isso. Tenho algumas postagens sobre tinta aquarela e outras sobre tinta guache, mas acho que nunca abordei as diferenças entre elas.


Enfim, depois de me amparar na literatura e preparar um pequeno estudo prático para exemplificar as descobertas, criei coragem para trazer a discussão pra cá.

Composição das tintas:
De acordo com o livro Manual do Artista, "o guache é uma aquarela opaca" (MAYER, 2015). Ou seja, há pouca diferença na composição das duas tintas.

No livro ainda encontramos a seguinte explicação: "As tintas guache são feitas pela moagem de pigmentos no mesmo medium utilizado para aquarelas, mas se utiliza uma porcentagem definitivamente maior de veículo do que é usado na aquarela e com adição de vários pigmentos inertes, como gesso-cré ou blanc fixe (...); assim se obtém o efeito opaco" (MAYER, 2015).

Na prática:
Ambas, guache e aquarela, são tintas solúveis em água e podem ser encontradas no mercado em potes, bisnagas ou pastilhas. A maior diferença entre as duas está no objetivo esperado com a pintura, pois dão resultados distintos em relação à técnica. Enquanto a aquarela valoriza as transparências das cores, que se misturam com sobreposições de camadas, escurecendo gradativamente o papel branco, que permanece visível; o guache proporciona resultados opacos, cobrindo completamente o substrato, independente da sua cor original.

Inclusive você pode usar tinta aquarela mais concentrada para simular técnicas opacas de guache, assim como pode diluir suas tintas guaches para obter efeitos aquarelados, como mostrarei a seguir.


Fiz dois desenhos iguais em uma folha de papel para fazer o experimento de usar guache como aquarela, diluindo bastante a tinta e trabalhando camadas translúcidas; e aquarela como guache, diluindo pouquíssimo e misturando algumas cores com branco, para ter resultado ainda mais opaco.

Estudo 1 - Aquarelando guache
Para "transformar" guache em aquarela, é preciso aguar bastante a tinta. Neste estudo optei por usar apenas as 3 cores básicas (ciano, magenta e amarelo) de guache em bisnaga (marca TGA) na paleta, e fazendo as misturas necessárias para obter novas cores, incluindo tons mais escuros.


Usei pincel redondo de cerdas sintéticas, sempre úmido, retirando o excesso de água com ajuda de um guardanapo para não danificar as fibras do papel.


A imagem acima foi o resultado do primeiro estudo.

Estudo 2 - efeito de guache com aquarela
O segundo desenho foi trabalhado com a tinta aquarela também em bisnaga (marca Pentel), pouco diluída. Usei umas 6 cores diferentes, e misturei algumas com branco a fim de conseguir tons pasteis também. Aguei o suficiente para a tinta aderir ao pincel e deslizar no papel.


Usei pincel redondo, número 2, para ter mais precisão. Optei aplicar as cores de forma blocada, para intensificar ainda mais o efeito opaco característico de guache.


E a imagem acima foi o resultado do segundo estudo. É possível notar a diferença de textura que a tinta sem diluição adquiriu no papel.

Considerações finais:
Mesmo não tendo diferenças gritantes na composição, precisamos entender que cada tinta tem sua técnica/aplicação correspondente. Apesar de ter conseguido manchas e efeitos bem próximos da aquarela, o guache ainda se manteve opaco e de toque áspero depois de seco. A aquarela, por sua vez, se comportou muito bem como guache, mas seria um gasto desproporcional o seu uso em trabalhos de grande escala, tendo em vista que foi feita para ser diluída.


Queria falar das diferenças, mas fui me empolgando e acabei falando das semelhanças. Se você nunca teve contato com essas tintas e ficou na dúvida de qual das duas comprar para experimentar, use como critério de desempate o objetivo e resultado esperado para seu trabalho. Para massas de cores mais opacas, que ofereçam cobertura total do papel - seja ele de qualquer cor: use guache. Mas se quiser trabalhar com transparências, manchas, sobreposições e delicadeza: aquarela.

Espero que este post tenha sido útil... Se ficou alguma dúvida, pode me escrever, viu? E se você já trabalha com esses materiais, fique a vontade para compartilhar sua experiência aqui nos comentários e ajudar quem está se aventurando. S2

Até a próxima! o/